Semana Farroupilha - Luiz coronel






Hoje, a poesia de Luiz Coronel, do livro "Buçal de Prata" e, na cozinha, "Peixe nas núvens", para se distrair do churrasco...

Peixe nas núvens
1 kg de postas de Dourado ou outro peixe que mantenha com este algum parentesco.
3 colheres de sopa de margarina
1 cebola picada
1/2 xícara de salsinha
1/4 xícara de azeitonas pretas2 colheres de sopa de suco de limão
2 xícaras de palmito picado
1/2 xícara de catupiry
1 xícara de creme de leite
1 pimenta picadinha
sal a gosto

Doure os Dourados na margarina, reserve.
Refogue a cebola, adicionando o sal, a salsa, a pimenta, as azeitonas e o limão.
Adicione o palmito e cozinhe por 5 min.
Misture o creme de leite e o *catupiry.
Espalhe este molho sobre as postas de peixe reservadas e
leve ao forno por cerca de 30 minutos.

*requeijão brasileiro - catupiry é termo indígena e significa "excelente"  


Cantos de Leontina das Dores 

 
Eu me chamo Leontina das Dores
Das Dores Maria Leontina.
De amores que sempre findam
Das Dores que não terminam.


Pra dentro Maria Leontina
menina não vai ao galpão.
Leontina de quarto e sala
Leontina quarto e prisão.


Com seu amor primeiro
Leontina não casa não.
Vai casar com o lindeiro
e o aramado vai pro chão.

São mais seis léguas de campo
sesmarias de solidão... 


Causo - Amores Risiveis


"Galhos secos deram frutos no dia em que o amor nasceu", cantarolava Tia Mimosa, solteirona convicta do tempo do pincenê. 
Na verdade, a história nada tem a ver com Tia Mimosa, posto que se refere especificamente a Pascoal Garcia, o Don Pacholo, nome pelo qual se fez conhecido pelas bandas do Povo Novo, longevos reinos do Nenê Luz. 
Com cautela, se achegando aos fatos, podemos dizer que, em geral, os argentinos são árvores de palavras. Falam que nem caturrita de hospício. Contrariando a regra, este ao qual o causo se refere era homem de um silêncio abissal. "Boca de falar pouquices e orelhas de ouvir urgentes necessidades". Arrancar uma palavra dele era sacar rolha de garrafa de vinho por longo tempo guardada em pé. Tinha os lábios tensos, apertados para não deixar fugir um sorriso, voar uma palavra tonta ou livre. Mas, como dizem os livros sagrados, "não é bom o homem só". Mário Cafifa, emérito namorador, armou um encontro entre Don Pacholo e a Lola Campos no bar do Velho Capitão. É bom frisar que o "Campos" Lola perdera no giro das roletas de Punta del Este e em desenlaces matrimoniais. Agora, por força das circunstâncias, se assumia por Lolita, no más. Sentaram-se à mesa, ele comedido num vinho tinto, ela encarando, sôfrega, sua cuba-libre. Lolita acende um cigarro no outro, nervosa, tentando iluminar a treva daquele silêncio tumular. Lá pelas tantas, ela não se agüenta:
-Fala, língua de defunto, diz alguma coisa!
-Como fumam las mujeres separadas - foi tudo que disse Pacholo.
Em silêncio quedaram até altas horas, embora a noite fosse domais frio e tenebroso inverno. O segundo diálogo foi um grand finale.
-Vamos a um motel? - sugeriu Lola.
-No me gustan los moteles com sus camas redondas en donde no se puede apoyar los talones.
-Então, vamos à minha casa - foi a proposta de Lola.
-Cuando amanezca tendré que irme - disse Pacholo, o silencioso Don Juan.
Chamar de casa aquele morredouro perfazia um eufemismo. Pelas frinchas da janela, o vento entrava sem pedir licença e o gélido frio tomava conta do recinto. Don Pacholo estava no reino das mil e uma frestas.
-La pucha digo, no hay un coñac en esta casa para calentar el cuerpo?
O cobertorzinho para um quebrava o galho. Para dois, um problema dramático. O inverno fazia serenatas com os violinos da chuva chorando pelas calhas.Uma luzinha vermelha num abajur sem vestimenta criava o clima romântico, no entendimento da frívola aventureira. Que clima me falas, se fizeram um amor batendo queixos, tiritando de frio. E não é preciso ter servido na infantaria para saber que é melhor um inimigo pela frente que um vento pelas costas. Tão logo conseguiu se escapar daquela mulher de bunda de pingüim, o gélido boêmio adentrou-se no poncho e tomou o rumo da portinhola. Semi dormida, saindo dos labirintos do sono, Lolita murmurou:
-Quando é que tu voltas? Diz pra mim, quando, Pacholo?
Don Pascoal Garcia, levantando a gola e com a mão na aba do sombreiro, pronto para enfrentar a brumosa madrugada, respondeu ríspido e rasteiro: - En el verano, señora! En el verano!

Nota: Luiz Coronel nasceu em Bagé, no Rio Grande do Sul, passando a residir, mais tarde, em Porto Alegre, capital. A Poesia "Noturno de Porto Alegre" foi apresentada na Semana de Porto Alegre e o causo "Amores Risiveis" e do livro "O Cachorro Azul". Outras Obras: "Buçal de Prata", "Poemas Azuis", "Os Retirantes do Sul", "Saturnino desce ao Pampa", "O Dia da Inauguração do Mundo" , "Os Cavalos do Tempo", "Lunarejo" "O Cavalo Verde", "O Gato Escarlate", "Mundaréu".



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