Semana Farroupilha - Apparício Silva Rillo
Neste mês de Setembro, prestando um tributo à Literatura Gaúcha, apresentarei alguns dos grandes nomes da nossa poesia e prosa, além de alguma receita típica destes pagos, direto do caderno da minha Nona...Hoje, a iguaria típica dos dias de castração, na estância gaúcha, e o acompanhamento é do grande poeta porto-alegrense, Apparicio Silva Rillo, o "Poeta do Tempo", nas palavras da professora Zilá Delavy. A poesia é do livro "Cantigas do Tempo Velho" e o causo, também dele, é do "Rapa de Tacho 3".Manjemos...
Bagos em Apuros: ingredientes - testículos de touro(da castração); uma xícara de "aceite" argentino; dois ovos (desta vez, de galinha); cebola picada; pimenta dedo-de-moça; uma xícara de farinha de mandioca; uma xícara de manjerona picada; sal. Execucão - Cozinhar os testículos e tirar a pele, temperar com sal. Aquecer o azeite, fritar as cebolas e os testículos em pedaços, até dourar. Acrescentar os demais ingredientes picados, os ovos batidos e por último a farinha.
Cismas de Velho
Quando a garoa do inverno
me atropela pro galpão,
chego a chaleira ao tição,
corto um crioulo a preceito,
e abrindo as varas do peito
me ponho, triste, a cismar.
E logo vejo apontar
- furando a garoa mansa -
a tropilha da lembrança
que eu nunca pude amansar.
É balda de quem é velho
viver jungido ao passado:
- como um boi magro e cansado
sofrendo ao peso da canga,
mas que paciente e sem zanga
vai mascando a malagueta
que é o carreteiro sotreta
que não lhe afrouxa o serviço.
E o boi velho, nem por isso
deixa de amar a carreta.
Por mais que tenha sofrido
sempre um velho ama o passado.
Como um matungo estropiado
que já não dá mais rodeio,
que gastou no aço do freio
seu derradeiro colmilho;
que nunca conheceu milho,
nunca passou do capim.
E o matungo, mesmo assim,
tem saudade do lombilho.
Mesmo com marcas no couro
de algum puaço mais forte,
mesmo sabendo que a sorte
lhe foi ventena e mesquinha,
um velho quando se aninha
no achego dos pensamentos,
disfarça esses maus momentos
nalguma fresta do peito,
como um remendo bem feito
que se tapeia nos tentos.
Esta verdade é sabida
dos chirus mais veteranos:
- que no rebolo dos anos
mesmo as horas mais funestas
vão embotando as arestas,
tomando um novo feitio.
E acaba sempre sem fio
o punhal dos desenganos
porque o rebolo dos anos
gira sempre de arrepio...
Causo
Corria no foro de Guaíba um processo de injúria e difamação envolvendo como partes duas vizinhas. Uma, claro, falara mal da outra, subiu o grau da fervura e o caso, finalmente, viera á casa da justiça - a ceguinha que todos conhecemos.
Era patrono da ré o bacharel José Godoy Ilha, hoje falecido. Arrolou para a defesa um mulato bem falante que tinha a mania de falar difícil e, sempre que possível, em versos mais ou menos rimados.
Chegou o dia da audiência. Arroladas as testemunhas da acusação e tomados a termo seus depoimentos, chega a vez das de defesa. Entre elas, o mulato, impecável num traje de brim listrado.
Nome, idade, profissão, jura falar apenas a verdade?
- Conhece a senhora Fulana de Tal?
- Tanto quanto a mim própio, Reverência.
- Sabe alguma coisa a seu desabono?
- Esta palavra, Reverência, não integra a minha antologia.
- Está bem. Sejamos mais claros: ela é honesta?
- Honesta? Na testa...
- Quer dizer o quê, com isto?
- Honesta só na testa, porque por baixo já foi tudo à festa!
Nota: Apparício Silva Rillo (1931-1995), é o "Poeta do Tempo", nas palavras da professora Zilá Delavy. Nasceu em Porto Alegre, capital gaúcha, mas viveu a maior parte de seu tempo em São Borja. Esta poesia " Cismas de Velho" é do livro "Cantigas do Tempo Velho" e o causo, também dele, é do "Rapa de Tacho 3". Também compõem a sua Obra, "Viola de Canto Largo", "Caminhos de Viramundo", "Pago Vago", " Doze Mil Rapaduras" e a Trilogia "Rapa de Tacho".


