Conto: Carlos Cruz - Raimunda




Raimunda era uma mulher infeliz, muito infeliz. Obrigada a passar os dias reclusa, trancafiada em seu pequeno quarto sem janelas, longe dos olhares curiosos dos vizinhos e parentes. A única pessoa com quem tinha contato era sua mãe. Diariamente, Dona Jurema levava-lhe as refeições e passava alguns minutos na companhia dela, em silêncio. Não havia espelhos no quarto. Raimunda sabia o porquê. Nascera com um defeito congênito, um defeito que fazia dela um ser bizarro, diferente, uma anomalia ambulante: tinha cara de bunda e bunda de cara. Isso mesmo, por alguma razão que só Deus - ou o Diabo - sabiam, seu corpo havia se formado com essa estranha inversão. Só essa. O resto estava todo em seu devido, anatômico e fisiológico lugar. Ou quase...








Conto: Sandra Santos - Perdidos




Saindo do forno,  o Livro do Bar do Escritor - Anarquia Brasileira de Letras, pela LGE editora:
Além deste Conto, muita literatura boa de Muryel  de Zoppa, Giovani Iemini, Me Morte e muitos outros bebuns famosos...


Os homens jogavam sinuca, na tarde morrida... Era um puxado num casarão de esquina, perdido num rincão, perdido no tempo e no mundo...

O vento eriçava os pelos e adentrava a saia, maroto como correntino. O dono do bar percorria com o olhar o caminho do vento enquanto secava os copos de bebida. A mulher não era das redondezas, ruminava. As mulheres dali eram possantes! Tiravam sustância da terra. Tinham formas arredondadas e marido. Aquela era magrela, como ovelha bichada... Prestando atenção em sua face descarnada e nos olhos úmidos e amendoados, não deixava mesmo de ter semelhanças... Mas as pernas eram bem torneadas, os seios em pera, apesar de pequenos...








Conto: Luise Riser - O Gato Ruivo





Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.

Eu sempre tenho de pensar naquele diabo de gato ruivo, e não sei se foi certo o que fiz. Tudo começou quando estava sentado em nosso jardim, no monte de pedras ao lado da cratera aberta por uma bomba. Este monte de pedras é a parte maior de nossa casa. A menor ainda está de pé, e é aí que nós moramos, eu e mamãe e Peter e Leni, que são meus irmãos menores. Lá estou, então, sentado sobre as pedras, a grama já cresce por toda parte, e as urtigas e outras plantas. Estou segurando na mão um pedaço de pão que já está duro, mas minha mãe diz que pão velho faz mais bem do que o fresco. Na verdade ela diz isso porque acredita que o pão velho precisa ser mastigado por mais tempo e, com isso, fica-se satisfeito com menos. Não é o que acontece comigo. De repente, um naco cai no chão. Eu me abaixo, mas no mesmo instante uma pata vermelha sai de dentro da urtiga e fisga o pão





Machado de Assis - mini-conto



Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.


(estilo antitético e asmático...)

Um menino atara a lata ao rabo do cão. Que é rabo? Um prolongamento e um deslumbramento. Esse apêndice, que é carne, é também um clarão. Di-lo a filosofia? Não; di-lo a etimologia. Rabo, rabino: duas idéias e uma só raiz. A etimologia é a chave do passado, como a filosofia é a chave do futuro.

O cão ia pela rua fora, a dar com a lata nas pedras. A pedra faiscava, a lata retinia, o cão voava. Ia como o raio, como o vento, como a idéia. Era a revolução, que transtorna, o temporal que derruba, o incêndio que devora. O cão devorava. Que devorava o cão?




Conto:Franz Kafka - O Artista da Fome





Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.

Nas últimas décadas o interesse pelos artistas da fome diminuiu bastante. Se antes compensava promover, por conta própria, grandes apresentações desse gênero, hoje isso é completamente impossível. Os tempos eram outros. Antigamente toda a cidade se ocupava com os artistas da fome: a participação aumentava a cada dia de jejum; todo mundo queria ver o jejuador no mínimo uma vez por dia; nos últimos, havia espectadores que ficavam sentados dias inteiros diante da pequena jaula; também à noite se faziam visitas cujo efeito era intensificado pela luz de tochas; nos dias de bom tempo a jaula era levada ao ar livre e o artista mostrado especialmente às crianças. Embora para os adultos ele não passasse de um divertimento, no qual tomavam parte por causa da moda, as crianças olhavam com assombro, de boca aberta, uma segurando a mão da outra por insegurança, aquele homem pálido, de malha escura, as costelas extremamente salientes, que desdenhava até uma cadeira para ficar sentado sobre a palha espalhada no chão: ora ele acenava polidamente com a cabeça, ora respondia com um sorriso forçado às perguntas, esticando o braço pelas grades para que apalpassem sua magreza e mergulhando outra vez dentro de si mesmo, sem se importar com ninguém



Conto: Arthur Clark - Os 9 Bilhões ...





Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.

O doutor Wagner conseguiu reprimir-se. Era meritório. Depois disse:
- O seu pedido é um pouco desconcertante. Que eu saiba, é a primeira vez que um mosteiro tibetano faz a encomenda de um calculador eletrônico. Não quero ser curioso, mas estava longe de pensar que semelhante instituição pudesse necessitar desta máquina. Posso perguntar-lhe em que deseja utilizá-la?
O Lama ajeitou as dobras de sua túnica de seda e pousou sobre a secretária a régua de calcular com a qual acabava de fazer conversões libra-dólar.
- Naturalmente. O seu calculador eletrônico tipo 5 pode fazer, segundo diz o catálogo, todas as operações matemáticas até 10 decimais. No entanto, o que me interessa são letras, não números. Pedir-lhe-ei portanto que modifique o circuito de saída de forma que imprima letras em vez de colunas de números.
- Não compreendo muito bem...
- Desde que a nossa instituição foi fundada, há mais de três séculos, que nos consagramos a um determinado trabalho. É um trabalho que pode parecer-lhe estranho e peço-lhe que me escute com a maior largueza de espírito.
- De acordo.
- É simples. Tentamos organizar a lista de todos os nomes possíveis de Deus







Caio Fernando Abreu - A Margarida Enlatada



Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.

Foi de repente. Nesse de repente, ele ia indo pelo meio do aterro quando viu um canteiro de margaridas. Margarida era um negócio comum: ele via sempre margaridas quando ia para sua indústria, todas as manhãs. Margaridas não o comoviam, porque não o comoviam levezas. Mas exatamente de repente, ele mandou o chofer estacionar e ficou um pouco irritado com a confusão de carros às suas costas. O motorista precisou parar um pouco adiante, e ele teve que caminhar um bom pedaço de asfalto para chegar perto do canteiro. Estavam ali, independentes dele ou de qualquer outra pessoa que gostasse ou não delas: aquelas coisas vagamente redondas, de pétalas compridas e brancas agrupadas em torno dum centro amarelo, granuloso. Margaridas



Conto: H  G Wells - Em Terra de Cego





Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.


A trezentas milhas ou mais do Chimborazo, e a cem milhas das neves do Cotopaxi, nas regiões mais selvagens dos Andes equatoriais, ali fica esse misterioso vale entre as montanhas, separado do mundo dos seres humanos, a Terra dos Cegos. Há muitos anos esse vale estava tão aberto ao mundo, de modo que os seres humanos podiam ali chegar afinal, através de medonhos desfiladeiros e por sobre um passo gelado, dentro de suas pradarias amenas; e lá realmente chegaram seres humanos, uma família ou pouco mais de mestiços peruanos, fuginndo da cobiça e da tirania de um malvado governante espanhol. Então houve a estupenda erupção do Mindobamba, quando a noite durou dezessete dias em Quito, a água ficou fervendo em Yaguachi e todos os peixes mortos chegavam flutuando até mesmo a Guaiaquil; por toda parte, ao longo das encostas do Pacífico, houve deslizamentos de terra, rápidos degelos e inundações súbitas, e todo um lado da velha crista do Arauca se desprendeu e veio abaixo em meio a um ruído como trovões, e a erupção separou para sempre a Terra dos Cegos dos passos exploradores dos seres humanos. Mas aconteceu de um desses colonizaadores iniciais estar do lado de cá dos desfiladeiros quando o mundo tremeu tão terrivelmente, e por força ele teve de esquecer sua mulher e filho, todos os amigos e posses que tinha deixado lá em cima, e teve de começar de novo no mundo mais abaixo



Conto:Allan Poe - O Homem na Multidão




Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.

De certo livro germânico, disse-se, com propriedade, que "es lässt sich nicht lesen" - não se deixa ler. Há certos segredos que não consentem ser ditos. Homens morrem à noite em seus leitos, agarrados às mãos de confessores fantasmais, olhando-os devotamente nos olhos; morrem com o desespero no coração e um aperto na garganta, ante a horripilância de mistérios que não consentem ser revelados. De quando em quando, ai, a consciência do homem assume uma carga tão densa de horror que dela só se redime na sepultura. E, destarte, a essência de todo crime permanece irrevelada.

Há não muito tempo, ao fim de uma tarde de outono, eu estava sentado ante a grande janela do Café D. ..
 




Conto:Anton Tchekhov - O Bilhete Premiado




Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.


Ivan Dmítritch, homem remediado que vivia com a família na base de uns 1200 rublos por ano, muito satisfeito com seu destino, certa noite, depois do jantar, sentou-se no sofá e começou a ler o jornal.

- Esqueci de dar uma olhada no jornal de hoje – disse sua mulher tirando a mesa. – Dê uma espiada para ver se saiu o resultado do sorteio.

- Saiu – respondeu Ivan Dmítritch -, mas você não penhorou seu bilhete?






Conto: Clarisse Lispector - As Águas do Mar






Da série: "de quem é esse conto?". Adivinhe, leitor! Domingo que vem, eu conto!
observação: o nome do autor e biografia, será colocado, posteriormente, em update no final do texto.


O mar, a mais ininteligível das existências não humanas. E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos. Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo, tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos. Ela e o mar.Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro: a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões. Ela olha o mar, é o que pode fazer. Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra. São seis horas da manhã




Concurso de Contos da Gata por um fio






Em comemoração ao aniversário de primeiro ano, a Gata entrega o Blog a estes talentosos leitores, ganhadores do Concurso de Contos, e vai dar um passeio por outros telhados.  Boa leitura e até breve!

O 1° lugar levou a coleção do mestre Fellini (4dvds) com os filmes: "A Doce Vida" (1960), "Julieta dos Espiritos" (1965), "Abismo de um Sonho" (1952) e "Nino Rota, entre o cinema e o Erudito" (2000).


Cortejo Negro - Diego Müller

Os troncos secos da mata há muito morreram. Névoa grossa cegava além do estreito caminho que cruzava o lugar. O açude secara naquele tempo de pouca chuva. Tinha eu poucos anos. O balde cheio de água embarrada mal dava para beber. Hoje nem parece estreito d’água, e sim campo seco.
O caminho era lento praqueles todos. Todos negros, se arrastando num bolo de negrura em movimento. Bandeiras negras, camisas negras. Cheiro de morte e tristeza. Aroma de incenso velho. Folha queimada, ressecada ao mormaço de chuvarada, quase apodrecida.
O compasso de marcha: tum, tum, tum de tambor. Breve choro e soluço. A carroça, nova ou pouco usada, mal rangia. O cavalo, velho e desinteressado, ia por que ia. Pouco importa o defunto. O chão, carbonizado, tudo pintava de negro. Eu observava tudo, num aspecto de mineiro, maquiado para os túneis - camuflagem de curioso.
Todos em fila: ia o padre, grande homem negro, o carro, novo e negro, a viúva, jovem negra, as filhas, pequenas flores negras, os outros, todos negros, e alguns, nem sei bem, negros. Negros? 




O 2° lugar levou a coleção do mestre Federico Fellini (3dvds) comos filmes: "A Trapaça" (1955), "Boccaccio´70"(1962) e "E La Nave Va" (1983).O 2° lugar levou a coleção do mestre Federico Fellini (3dvds) comos filmes: "A Trapaça" (1955), "Boccaccio´70"(1962) e "E La