Conto: Sandra Santos - Perdidos




Saindo do forno, o Livro do Bar do Escritor - Anarquia Brasileira de Letras, pela LGE editora:
Além deste Conto, muita literatura boa de Muryel  de Zoppa, Giovani Iemini, Me Morte e muitos outros bebuns famosos...


Os homens jogavam sinuca, na tarde morrida... Era um puxado num casarão de esquina, perdido num rincão, perdido no tempo e no mundo...

O vento eriçava os pelos e adentrava a saia, maroto como correntino. O dono do bar percorria com o olhar o caminho do vento enquanto secava os copos de bebida. A mulher não era das redondezas, ruminava. As mulheres dali eram possantes! Tiravam sustância da terra. Tinham formas arredondadas e marido. Aquela era magrela, como ovelha bichada... Prestando atenção em sua face descarnada e nos olhos úmidos e amendoados, não deixava mesmo de ter semelhanças... Mas as pernas eram bem torneadas, os seios em pera, apesar de pequenos...

A mulher sentiu o olhar devassador, virou-se e caminhou para um banco de tábua, lá embaixo dum cinamomo, ao relento... Mas, que fazia a criatura? Por certo queria morrer de frio, com aquele vento e aquela garoa quase neve num vão criado por Deus-Nosso-Senhor entre a tarde e a noite...

Um dos homens, que pintava de giz o taco da jogatina, enfiou a cara pela janelinha de tramela e chamou! Perguntou se não queria uma gajeta com mortadela. Ela fez que não, com um meneio de cabeça e ele retrucou que era de graça. Ela voltou. Comeu, ali mesmo, no balcão do bolicho, à luz do lampião de gás que já agora iluminava a sua pele murcha, não dos anos, mas da magreza... Não tinha aonde ir. Já viajava há dias na boleia de um caminhão, sem destino, mas o caminhoneiro havia chegado ao destino dele e a largara ali. Não sabia para onde nem de onde... O homem que lhe pagara o fiambre lhe indicava uma tapera perdida numa ponta de mato, a poucas horas dali, deixando a estrada. Agradeceu a bondade e seguiu o rumo indicado, na noite fria e sem lua.

Era uma picada comprida, cheia de juás... Muitos galhos secos a lhe riscar as pernas. Pensando em se aquecer num pequeno fogo, foi recolhendo gravetos pelo caminho. Ao chegar à casa abandonada, trazia uma braçada de lenha.

Não havia porta. Nem fogão havia. Umas poucas paredes protegiam do vento, junto com o arvoredo... O chão era batido... O teto de capim santa fé, já desmachando, deixava clarabóias, por onde se podia ver o céu e as estrelas, nas noites quentes, supunha-se, era uma noite escura..noite de desgraçados...Ela suspirou, um canto só seu... Ajoelhou-se a principiar o fogo. Uma preteleira, no quarto contíguo, ainda guardava latas com banha e farinha de milho. No dia seguinte haveria de ver o que dava para fazer... Agora, era se aquecer e descansar da vida... Pelo menos, por um dia...E adormeceu com os uivos do graxaim, ao longe, que ela não conhecia.

O que se sucedeu a seguir, embaralhou-se na sua mente. Reconheceu um deles, o que lhe tinha sido gentil. Os outros tinham todos o mesmo focinho, o mesmo cheiro de cachaça, as mesmas mãos imundas, o mesmo sofrenegar dos animais no cio. Não havia o que fazer! O grito se perdeu na garganta... As pernas paralisaram... Perdeu a noção do tempo, desviou o próprio pensamento para um cadinho de infância feliz e depois, mais tarde, o primeiro namorado e cerrou os olhos, assim...

sandra santos
in Bar do Escritor - LGE Editora 

Nota: Sandra Santos nasceu em São Luiz Gonzaga e publicou seus primeiros rabiscos aos quinze anos de idade. Cedo percebeu que não tinha talento e abandonou o ofício da escrita. Vez ou outra tem uma recaída e atende o apelo de alguns leitor despretensioso. Vive de rabiscar cores fortes em qualquer tela desavisada ou ensaiar formas chucras no barro das olarias. Faz " à unha" o blog " A Gata por um Fio"!



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