Concurso de Contos da Gata por um fio






Em comemoração ao aniversário de primeiro ano, a Gata entrega o Blog a estes talentosos leitores, ganhadores do Concurso de Contos, e vai dar um passeio por outros telhados.  Boa leitura e até breve!

O 1° lugar levou a coleção do mestre Fellini (4dvds) com os filmes: "A Doce Vida" (1960), "Julieta dos Espiritos" (1965), "Abismo de um Sonho" (1952) e "Nino Rota, entre o cinema e o Erudito" (2000).


Cortejo Negro - Diego Müller

Os troncos secos da mata há muito morreram. Névoa grossa cegava além do estreito caminho que cruzava o lugar. O açude secara naquele tempo de pouca chuva. Tinha eu poucos anos. O balde cheio de água embarrada mal dava para beber. Hoje nem parece estreito d’água, e sim campo seco.
O caminho era lento praqueles todos. Todos negros, se arrastando num bolo de negrura em movimento. Bandeiras negras, camisas negras. Cheiro de morte e tristeza. Aroma de incenso velho. Folha queimada, ressecada ao mormaço de chuvarada, quase apodrecida.
O compasso de marcha: tum, tum, tum de tambor. Breve choro e soluço. A carroça, nova ou pouco usada, mal rangia. O cavalo, velho e desinteressado, ia por que ia. Pouco importa o defunto. O chão, carbonizado, tudo pintava de negro. Eu observava tudo, num aspecto de mineiro, maquiado para os túneis - camuflagem de curioso.
Todos em fila: ia o padre, grande homem negro, o carro, novo e negro, a viúva, jovem negra, as filhas, pequenas flores negras, os outros, todos negros, e alguns, nem sei bem, negros. Negros? Eu também.
Os poucos troncos ainda em pé desmoronavam com o tempo. Primeiro a casca, que firmava o oco pilar de mato morto. Depois o resto, que era o todo pois nada havia além do tronco. Eu era o tempo. Minha mão raspava a superfície, as unhas cravavam no caule, derrubando pequenos fragmentos podres. Esfarelava o tronco. Era tão fatal quanto o fogo que queimara tudo. Mato negro, açude seco. Isso quando tinha poucos anos. Nem conhecia ela e ela não me conhecia. Pelo menos acho eu. Mas todos eram próximos, só não se falavam. Não havia interesse algum em se chegar. Só se fosse para aumentar o pátio de casa. E assim foi. Lembro que era uma tal de Madissinéia. Nome estranho, nome difícil. Filha minha terá nome de santa! Então Maria e Maria. Vieram logo. Todos de branco.
Muito pouco tempo. Já não as tenho. Creio que há dois dias ando pelo costado da estrada, neste imenso matagal morto, carbonizado e negro. A noite ainda mais. Na hora que perdi os sentidos me veio à cabeça este lugar desolado. A medida que a vista nublava, a ferida queimava e o corpo tremia, não sei porque lembrei desta horrorosa assombração de tudo morto. Não devia ter ido a casa! Nem saber eu queria. Se soubesse, pediria para não saber. Não sabendo, ninguém saberia.
Ele estava lá, em meu lugar. Eu no lugar errado. Demoraram a perceber que os via. Creio que as meninas a brincarem no pátio abafaram minha entrada. Mas ao me verem logo desvencilharam-se, um para cada lado. Ela para esconder-se nos panos. Ele para o cabo da arma. Tum, tum, tum de tambor.
Uma das Marias se ajoelhou e me pegou na mão. Madissinéia, tapada somente por um lençol branco, deixava as canelas a mostra, denunciando pernas mal depiladas. O sol daquela tarde transparecia o branco, e a deixava nua, suada. Estava revolta pelo sol intruso que lhe silhuetava. Quase aura, tipo santa. A Maria ao meu lado chorava. A outra, escondia o rosto na cintura da mãe que, sem bem lembro, não chorava, não ria, não cegava, nada. Estava com um olhar firme, numa expectativa de "quase".
As janelas bateram fortes numa ventania repentina. Os cabelos de Madissinéia agitaram-se. Minha Maria chorava mais alto, mas eu a ouvia cada vez menos. A outra Maria ainda mais longe. A porta também dava fortes socos contra a parede da sala. Tivesse o desgraçado fechado a porta ao sair para ninguém me ver.
Já iam longe na estrada que cruzava o mato. Eu não conseguia ir além. Todos em fila. Novamente um breve soluço e choro. Eles pisoteavam os galhos, numa sincronia de pisar, estalar, pisar. Todos no mesmo galho. Todos negros. Ela enxugava o suor feito lágrima. Devia estar cansada. Era difícil para uma jovem vestir negro.
De longe ainda sentia o azedo cheiro do cortejo negro. Via pequenos pontos negros em fila. Um grande homem negro ponteando os outros. Uma negrura jovem com mais duas outras. Outros negros juntos numa massa triste. Também alguns que nem sei bem se de negro iam. E eu fiquei no mato, recostado ao tronco. Vazio, oco, morto. Rodeado de outros, todos negros, muitos outros.

Blog do Diego Müller: aqui 


bookmark



Concurso de Contos da Gata por um fio



O 2° lugar levou a coleção do mestre Federico Fellini (3dvds) comos filmes: "A Trapaça" (1955), "Boccaccio´70"(1962) e "E La Nave Va" (1983).

Demitido - Marcos Pontes

Quando tinha dezoito anos, cursando contabilidade numa escola estadual de segundo grau, Diocleciano foi convidado pelo filho mais velhoda patroa de sua mãe, dona Kattyllenny, para trabalhar na empresa de plano de saúde que o rapaz acabara de criar.Por trinta e dois anos Diocleciano não faltou um dia, participou de todas as etapas de crescimento da firma que já se tornara uma das maiores do ramo, atendendo mal, como é praxe no ramo, em todo o país. Por detrás de sua mesa viu milhares de outros empregados serem admitidos, promovidos e demitidos. Aprendeu com Crinauro, o patrão, a ser fio ao dizer a um cliente que o plana contratado não cobria esse ou aquele atendimento médico. Acompanhava as mudanças impostas pelos sucessivos governos na legislação que regia os planos de saúde, viu seu patrão ficar rico, esteve no velório e no enterro do milionário Crinauro, esteve na posse de Crinauro Júnior na presidência da empresa, fez parte da modernização que trocara as máquinas Olivetti de datilografia por IBM elétricas e depois por computadores. Viu antigos companheiros serem substituídos por jovens doutores recém-formados,com sangue fresco e frio correndo nas veias e milhares de idéias renovadoras. Certo dia, ao chegar ao trabalho, foi avisado pela secretária dos Recursos Humanos que deveria apresentar-se imediatamente ao chefe do setor. Seria comunicado queestava sendo demitido e que cumpriria os trinta dias de aviso prévio, pelo estóico gerente. Sem perguntar por que, sem discutir, sem demonstrar qualquer emoção.Diocleciano assinou os papéis, deu baixa na Carteira Profissional e voltou para sua escrivaninha.No mês seguinte pareceu que nada havia mudado. O homem de 50 anos e rala cabeleira branca continuava a aparecer pontualmente, batia o ponto, assumia o lugar em sua mesa de mais de três décadas e trabalhava normalmente. Para a surpresa de todos, apareceu no trigésimo primeiro dia e repetiu a rotina. Chamado novamente à gerência de R.H. foi comunicado que não precisaria voltar mais, já não trabalhava mais ali.Com um simples "sim, senhor" despediu-se do gerente e voltou ao trabalho.Naquela idade só sabia fazer aquilo e ninguém mais contrataria alguém tão velho para um trabalho que qualquer garoto faria pela metade do salário. No dia seguinte, mais uma vez viam Diocleciano trabalhando normalmente.De nada adiantou trocarem as senhas dos computadores, as fechaduras, chamarem os seguranças... Diocleciano arrumava um jeito de voltar à antiga mesa, descobrir as novas senhas, esperar alguém abrir a porta para entrar junto, dar a volta no prédio e entrar pelos fundos junto com o pessoal dos serviços gerais que não ousavalhe dizer palavra. Acostumados com sua insistente presença e não vendo mal nenhum naquela teimosia, terminaram desistindo do insistente ex-funcionário. Estava sendo dispendioso e desgastante se preocuparem tanto com aquele velho que, ademais, era eficiente nas tarefas que se propunha. Dois meses depois de sua demissão, após uma reunião os diretores concluíram que melhor seria deixar Diocleciano em paz e concentrarem-se nos rombos de caixa que vinham se repetindo constatemente sem que qualquer um daqueles muitos técnicos conseguisse explicar o mistério. Não era nenhuma quantia assustadora que pusesse em risco a manutenção da empresa, mas eram diárias as pequenas diferenças na contabilidade. As contas nunca batiam. Contrataram consultores, fizeram serões e serões, infinitas reuniões, funcionários substituídos a cada semana, setores terceirizados e o mistério continuava: para onde e como estava saindo aquele dinheiro? Indiferente ao pânico que se formara indiferente à sua presença, Diocleciano trabalhava. Por cinco anos as coisas continuaram na mesma. Trocaram os programas dos computadores, trocaram os consultores, trocaram os diretores,aumentaram as seguranças, mas o dinheiro continuava sumindo e Diocleciano continuava trabalhando. Já se calculava em mais de dois milhões a quantia sumiada nesse período. Não era nenhuma exorbitância para o império, por outro lado, era uma quantia nada desprezível em qualquer lugar do mundo. Algo diferente aconteceu certo dia. Embora ninguémlhe desse atenção, todos perceberam sua ausência. Diocleciano não aparecera para trabalhar, o que foi um misto de alívio, saudade e piadas. O velhinho estava em Fernando de Noronha, curtindo a aposentadoria na pousada que montara, mais de dois milhões na conta e uma rede na varanda. Coincidentemente naquele dia o caixa da empresa nãoacusou qualquer irregularidade

Blog do Marcos Pontes: aqui


bookmark



Concurso de Contos da Gata por um fio



O 3° lugar levou a coleção(3dvds): "Moulin Rouge", "Romeu & Julieta" e "Titanic".

Vitória de São João - Helena Oliveira

O Dia desaparecia. Ia com ele a luz do Sol, a claridade se esgueirandocom fachos amarelo-avermelhados se escondendo por entre nuvens acinzentadas,formando um lindo contraste – coisas de Crepúsculo... A Noite não queria vir. Pelo menos era isso que aparentava. Mas a Lua já despontava no meio do nada claro-escuro, com um quê de indecisão – que nãose sabia por quê... Finalmente vinham as Estrelas, a espontar como uma centena de faróis, a acender numa espécie de seqüência – claro,numa ordem explicitamente ensaiada!A Lua – gorda! – ficou envergonhada de sua gigante aparência diante da multidão daquele arraial lá embaixo e puxou para si, com braços de luz, um lençol de Nuvens pretas,a tomar o céu de assalto: veio o Homem da Chuva, deslizando e comandando cada pingo fino, leve, médio e grosso, que vinha em cima da fogueira,do boi e do quentão. Veio a Tempestade. O Raio desceu, várias vezes.Acendeu o escuro, cortou o fundo. Rachou uma árvore. Desceu bem na cabeça de S. Zé – coitado!A turma da Chuva não queria ir embora e passou a noite toda pensando em São João. Em meio àquela situação, a Lua acabou por discutir com o Sol por trás da cortina de água e o Sol parece ter vencido, coisa que só deu para perceber depois que este surgiu com ar de vitória, tão baixa foi a discussão. E as Nuvens, aos pares, abriram caminho para aquela pompa tão amarelae quente, sobre os restos da animação da brincadeira que acabou cedo: assim veio a Manhã, a trazer de volta o calor do fim da festa, com o Sol a secar o cheiro do mato molhado. Secando a madeira molhada da fogueira...


bookmark